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quinta-feira, 17 de maio de 2007

Pela divisão da medicina: doente e consumidor

A parte inicial do texto abaixo (http://www.nejm.org) , motivo do post anterior vem ao encontro de uma proposta minha que seria dividir o que hoje se encontra no terreno da medicina: a medicina da doença, da dor e do sofrimento e a medicina do consumidor. Essa divisão é fundamental para dividir adequadamente os recursos e estabelecer prioridades, mas principalmente porque a ética é totalmente distinta nas duas situações. Em alguns locais, os consumidores exigem que se mude a configuração de um serviço destinado a tratar a doença, para outro objetivo, o de suprir seus desejos de consumidor. Por outro lado, estudantes de medicina optam já no curso por um dos lados. Seria interessante duas habilitações profissionais com dois conselhos distintos: o CRMD (D do Doente) e CRMC (C de Consumidor). Os médicos inscritos no primeiro continuariam jurando a Hipócrates, os profissionais abrangidos pelo segundo, ao deus Mercado. Nunca gostei do termo consumidor para "doente" ou "paciente", afinal ninguém deseja a doença e, quando ela atinge o indivíduo, torna o mais poderoso cidadão em uma pessoa fragilizada ao extremo.
The Mixed Promise of Genetic Medicine, Carl Elliott, In the early decades of the 20th century, most Americans considered cosmetic surgery to be just a few steps removed from quackery. Many observers saw the desire for cosmetic surgery as a mark of vanity, and physicians tended to believe that such surgery violated their ethical injunction to do no harm. Yet by the end of the century, cosmetic surgery had become a multibillion-dollar business, and it is now an accepted part of mainstream medicine, with its own professional journals and associations. Cosmetic-surgery clinics are sponsored by elite academic centers such as Stanford, Johns Hopkins, and the Mayo Clinic. Even some feminists embrace cosmetic surgery as a tool for self-fulfillment. What happened to produce such a dramatic change?
One relevant development may have been the rise of academic psychology and its acceptance by consumer culture. By midcentury, at least some Americans had been persuaded that cosmetic surgery could be seen as a medical treatment for psychological problems such as the inferiority complex. According to this view, cosmetic surgery was not quackery or vanity or even merely cosmetic; as historian Elizabeth Haiken writes, it was "psychiatry with a scalpel."
This view lined up nicely with a more expansive, holistic conception of medicine itself. If a legitimate purpose of medicine is to improve a patient's psychological and social well-being, why not accomplish that purpose with surgery?
The transformation of "enhancements" into "treatments" is now a familiar part of medicine, of course, and it has been accelerated by medicine's move into the consumer marketplace. Physicians today prescribe drugs to lengthen attention spans, strengthen erections, and smooth out wrinkled brows, even when they are not entirely convinced that what they are treating is a medical need rather than a consumer desire. Many others write prescriptions for conditions that blur the boundary between pathology and ordinary human variability: synthetic growth hormone for idiopathic short stature, antidepressants for social anxiety disorder, and hormone-replacement therapy for the effects of menopause. The line between what consumers want and what patients need has become very hard to draw.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Mais sobre o HPV: os limites da liberdade



O mapa americano ao lado mostra os estados em magenta onde foi aprovada a vacinação obrigatória para o papilomavírus para meninas entre 11 e 12 anos porque isso preveniria câncer de colo uterino. Em marrom, onde a proposta foi recusada e em verde onde há discussão. No momento há somente uma apresentação comercial, o Gardasil da Merck e, em breve haverá o Cervarix da Glaxo Smith Wellcome. Nessa semana, The New England Journal of Medicine - de onde esse mapa foi retirado - está debatendo (clique no título do post) a questão sob o ponto de vista ético, visto que o editorialista aceita a versão técnica do Center of Disease Control favorável à inclusão da vacina no calendário de imunização. Por sinal, decisão facilmente constestável novamente do ponto de vista técnico, vide o editorial - aqui reproduzido - da semana passada em JAMA. O debate que está florescendo nos Estados Unidos é sobre a liberdade dos pais em vacinarem ou não filhos e, principalmente da iniciação sexual. Porém, o mais importante é que ao contrário das reações históricas de todas as sociedades contra vacinas, nesse caso não porque exigir que a aluna confirme estar vacinada para algo que somente é transmitido sexualmente e, cujo impacto em outro indivíduo será remoto.

Explicando melhor com exemplos: (1) ao não vacinar seu filho contra sarampo - fato corriqueiro em famílias progessistas com médicos homeopatas nos anos 80 em São Paulo - esses pais colocaram de fato em risco a vida do filho e de seus colegas, porque o colega vacinado não necessariamente estava imunizado ( eficácia vacinal é de 95%), ou seja há risco de infecção mesmo em quem for vacinado. Por isso torna-se obrigatório reduzir a circulação de vírus na população infantil. Nesse caso, a imposição faz todo sentido, porque a sua liberdade não pode causar mal a terceiros, lembrando Stuart-Mill. (2) não vacinar uma menina para o papilomavírus aos 12 anos, não sigficará nada para a sociedade, para terceiros por vários motivos e, para ela própria. Por vários motivos, cujas variáveis, nem ela, nem os pais, nem niguém consegue estabecer, como ela se manterá virgem ou terá poucos parceiros ou mesmo infectada fará exames citológicos de prevenção ou uma enorme de chances outras. Lembro que o Gardasil cobre 70% dos tipos de papiloma associados ao câncer.

Ou seja há tantos condicionais, que há necessidade de se verificar quais são os grupo de "alta vulnerabilidade" e, aí sim atuar de forma decisiva e, obviamente com a força do estado aplicado a vacina gratuitamente.