domingo, 4 de março de 2007

A nova diáspora africana: médicos e enfermeiros.

Esse assunto já foi tratado aqui, no exemplo dos médicos de Gana. Agora, o The Center for Global Development publica (http://www.cgdev.org) um relatório completíssimo sobre a nova diáspora africana: a de médicos e enfermeiros. Os dados são impressionantes, por exemplo em Moçambique tem 1200 médicos trabalhando em Portugal, há mais de cinco mil médicos marroquinos na França.Faltam enfermeiros em Angola, mas há 1600 trabalhando em Portugal.Reino Unido e Estados Unidos empregam cada um 20 mil enfermeiros de vários países africanos. Em suma, países pobres financiam a formação de profissionais que têm carência e, provavelmente suprem parte da falta contratandos cubanos.
Pergunta: não seria essa transferência de mão de obra qualificada também uma diáspora infame? Talvez, somente superada por aquela outra diáspora dos séculos XVI-XIX da África para as três Américas. O texto abaixo pode ser lido na íntegra em http://www.cgdev.org/content/publications/detail/12908/
The migration of doctors and nurses from Africa to developed countries has raised fears of an African medical brain drain. But empirical research on the causes and effects of the phenomenon has been hampered by a lack of systematic data on the extent of African health workers’ international movements. We use destination-country census data to estimate the number of African-born doctors and professional nurses working abroad in a developed country circa 2000, and compare this to the stocks of these workers in each country of origin. Approximately 65,000 African-born physicians and 70,000 African-born professional nurses were working overseas in a developed country in the year 2000. This represents about one fifth of African-born physicians in the world, and about one tenth of African-born professional nurses. The fraction of health professionals abroad varies enormously across African countries, from 1% to over 70% according to the occupation and country. These numbers are the first standardized, systematic, occupation-specific measure of skilled professionals working in developed countries and born in a large number of developing countries.
Center for Global Development
New data on African health professionals abroad - Working Paper 95
Michael A. Clemens and Gunilla Pettersson
1776 Massachusetts Ave. NWThird FloorWashington DC 20036Phone: (202) 416-0700Fax: (202) 416-0750E-mail:
cgd@cgdev.org

O debate sobre a violência: OEI e Secretaria de Segurança de São Paulo

A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo contesta o "Mapa da Violência" publicada por essa ONG de governos, chamada OEI. (afinal, financiada ou não pelo contribuinte brasileiro??) Com razão em parte, afinal a qualidade do Mapa é muito inferior às quatro edições de "Estudos Criminológicos" da própria Secretaria. O ponto vulnerável do Mapa é tentar determinar taxas de mortalidade em municípios com população muito pequena. Epidemiologistas, sabemos que isso não se faz porque a variância é grande.... A crítica que nãos se sustenta é que o Mapa segue a lógica da saúde. Não é verdade, o Mapa chupa as informações do Datasus oriundas das secretarias de Estado.
Mas, afinal porque o Mapa tem tanto destaque e as Informações Criminológicas nenhum? Um paranóico diria que é porque uma informação é tucana e outra petista e, como a imprensa é dominada por....
Bobagem. A resposta mais plausível é que uma ONG governamental tem mais credibilidade entre a intelectualidade (mesmo quando utiliza dados já processados pelo próprio Ministério) quando comparada ao prestígio de uma Secretaria de Estado (mesmo quando financia trabalhos intelectualmente de valor).
Outra explicação é formal. O Mapa, apesar de desprovido de conteúdo é colorido e distribuído previamente à imprensa para que os jornais preparem com antecedência cadernos especiais. Em oposição, os Informes Criminológicos se confundem com teses acadêmicas, incluindo a apresentação de curvas de regressão multilinear e logística.
Abaixo, trecho do debate na Folha de S. Paulo
Para o governo do Estado de São Paulo, o "Mapa da Violência dos Municípios Brasileiros" divulgado no início da semana pela OEI (Organização dos Estados Ibero-Americanos) apresenta sérias distorções no que diz respeito à criminalidade.A principal conclusão do estudo, apresentado em Brasília pelo Ministério da Saúde, é a de que 10% dos municípios brasileiros -boa parte distribuídos pelo interior do país, longe das regiões metropolitanas- concentram 72% dos 48,3 mil homicídios registrados em 2004.O mapa da violência, feito pelo sociólogo argentino Julio Jacobo Waiselfisz, 68, apontou que o Estado de SP tem 71 cidades (12,77%) entre as 556 tidas como as mais violentas do país quando o tema é homicídio.De acordo com Túlio Kahn, 41, sociólogo, coordenador da CAP (Coordenadoria de Análise e Planejamento) e responsável por todos os estudos de violência da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, é preciso esclarecer as diferenças entre os conceitos da violência da área da Saúde, base para o mapa recém divulgado, e o da área da segurança pública."Para a área da saúde, a preocupação é saber onde vão ser construídos hospitais, quantos médicos precisam ser contratados, quantos leitos precisam ser criados. Para a saúde, não interessa se uma morte é culposa [sem intenção] ou dolosa [intencional]", diz Kahn.Na contramão das preocupações da área da saúde com as mortes violentas, Kahn aponta a ótica da polícia, baseada na classificação jurídica."A gente está interessado nos crimes dolosos, intencionais e que, do ponto de vista do planejamento das ações policiais, é alguma coisa que a polícia tem de lidar de uma forma diferente. Temos de ter outro tipo de ação com relação ao suicídio, acidentes", explica.Para Kahn, outro problema que causa distorções no ranking das cidades mais violentas é que a pesquisa da área da saúde leva em conta o local onde a vítima vivia."A Secretaria da Segurança não quer saber onde a vítima morava, quer saber onde aconteceu o crime. Porque se tiver que alocar viaturas, efetivo [policial], eu quero saber onde estava o criminoso", fala Kahn.Em alguns casos, nas cidades com rede hospitalar boa, a taxa de homicídio é inflada, como nas regiões metropolitanas.
Autor do "Mapa da Violência dos Municípios Brasileiros", o sociólogo argentino Julio Jacobo Waiselfisz, 68, admite que seu estudo, uma "lupa" do que foi a violência nos 5.560 municípios brasileiros existentes entre 2002 e 2004, tem pequenas distorções, mas que sua maior preocupação era chamar a atenção para a canalização de políticas públicas de segurança.

sábado, 3 de março de 2007

Assistência médica nos EUA: cobertura universal cada vez mais próxima

The New York Times e CBS divulgaram pesquisa sobre a assistência médica nos Estados Unidos. A maioria apoia um plano governamental que amplie a cobertura e, para isso se concretizar está disposta a pagar mais impostos. Obviamente, eleitores republicanos são contra, mas não conseguem interferir no resultado porque estão mais divididos que os democratas e, os independentes estão com os democratas. O resultado está no site do NYT http://www.nytimes.com.
A diferença com o Brasil é que temos cobertura universal, mas ninguém quer pagar por isso, somente exigir mais, mais e mais. Em hospital público exige-se até direito a estacionamento.

sexta-feira, 2 de março de 2007

Tortura em hospital na série de TV

Há duas semanas, no seriado "Without a Trace" (Warner, segunda feira, 21:00) a agente do FBI, Samantha Spader interpretada por Poppy Montgomery entra na enfermaria de um hospital e, interroga um paciente/suspeito que estava em uso de bomba de infusão com analgésico (talvez, morfina) com administração por demanda do próprio paciente de acordo com o nível da dor. Para conseguir a informação, Samantha tirava do paciente/suspeito a bomba de infusão de seu alcance e, ele com dor intensa entrega a informação que ela procurava.
A licença poética do roteirista me provocou revolta. Afinal ,nem em um determinado país e cidade que conheço bem não há em hospitais públicos, policiais interrogando doentes e causando sofrimento.
Hoje, tive acesso à campanha iniciada pelo Organização Human Righs First contra a tortura na TV, principalmente na série 24 horas da Fox por incentivar a tortura por militares. A pior coisa é banalizar a tortura e justificar o torturador. Abaixo, um pequeno resumo do problema originado por Jack Bauer.

The Impact: Soldiers Imitate What They See on TV
In interviews with former interrogators and retired military leaders, Human Rights First learned that the portrayal of torture in popular culture is having an undeniable impact on how interrogations are conducted in the field. U.S. soldiers are imitating the techniques they have seen on television – because they think such tactics work.

Doutor: não colabore com tráfico de drogas (e de atestados também)

Parece forte e sem sentido esse título. Sim, ele é sensacionalista, mas com uma ponta de verdade. Ele foi lembrado depois da publicação nessa semana das pesquisas mostrando o consumo absurdo de psicotrópicos no país.Está em todos os jornais.
Não há médico que ainda não tenha sido abordado por um (a): vizinho, parente, chefia do cônjuge, professor dos filhos, amigo do clube, professora de inglês, companheiro de jogging/poker, para fazer um "favorzinho". Nunca é para ele ou ela, mas para a mãe doente, o pai acidentado, a irmã recém-divorciada, o filho estressado. Trata-se de prescrever algum tipo de remédio controlado que "acabou, mas o médico está viajando blá blá blá". Em muitas vezes, não é abordagem, mas assédio.
Conclusão: há uma multidão de dependentes de medicamentos à custa de receitas de favor (e, de pressão mesmo).
Temos, nós médicos, que dar um basta a isso. Receita, somente depois de consulta. Professores de medicina, precisamos ensinar o respeito ao ato médico aos alunos desde o primeiro ano.
Na mesma linha dos medicamentos controlados entram os famosos atestados que variam do zero ao infinito. Para afrimar que é sadio ou para afirmar que é doente. Não interessa a hora ou local. Os mesmos personagens acima na têm escrúpulo para pedir atestado para a filha não cursar educação física, para ela própria fazer condicionamento físico na academia, para a empregada frequentar a piscina do SESC, para a filha menor não fazer prova, para o sobrinnho trancar a pós-graduação e, obviamente para ela não comparecer ao trabalho.
Quem não foi assediado por um "já-que" do tipo: doutor, já que estamos falando do Carlinhos que o senhor pois no mundo quando estava iniciando a sua clínica, agora ele está muito cansado e, não consegue nem trabalhar e nem acabar o mestrado, será que o senhor poderia....." E, aí aparece na faculdade um atestado de ginecologista falando que Carlos de Tal não pode frequentar o curso por depressão. Chato, não? Mas, real.

Uma atividade nobre: guerrear contra mosquitos, bactérias, vírus.

A saúde pública nasceu da atividade militar: ainda hoje nos expressamos em campanha contra a varíola, poliomielite e sarampo. Agora, autores de vários países mostram que a instituição militar é a mais organizada para o esforço de controle de doenças infecciosas em várias regiões do mundo e após desastres. O artigo encontra-se no http://www.scielo.org ou em http://www.who.int
Bulletin of the World Health Organization > Volume 85: 2007 > Volume 85, Number 3, March 2007, 161-244
The importance of militaries from developing countries in global infectious disease surveillance
Jean-Paul Chretien, David L Blazes, Rodney L Coldren, Michael D Lewis, Jariyanart Gaywee, Khunakorn Kana, Narongrid Sirisopana, Victor Vallejos, Carmen C Mundaca, Silvia Montano, Gregory J Martin, Joel C Gaydos
Military forces from developing countries have become increasingly important as facilitators of their government’s foreign policy, taking part in peacekeeping operations, military exercises and humanitarian relief missions. Deployment of these forces presents both challenges and opportunities for infectious disease surveillance and control. Troop movements may cause or extend epidemics by introducing novel agents to susceptible populations. Conversely, military units with disease surveillance and response capabilities can extend those capabilities to civilian populations not served by civilian public health programmes, such as those in remote or post-disaster settings. In Peru and Thailand, military health organizations in partnership with the military of the United States use their laboratory, epidemiological, communications and logistical resources to support civilian ministry of health efforts. As their role in international affairs expands, surveillance capabilities of militaries from developing countries should be enhanced, perhaps through partnerships with militaries from high-income countries. Military-to-military and military-to-civilian partnerships, with the support of national and international civilian health organizations, could also greatly strengthen global infectious disease surveillance, particularly in remote and post-disaster areas where military forces are present.

quinta-feira, 1 de março de 2007

Composição do Ar e Sintomas da Asma.

O texto abaixo publicado abaixo é de interesse para a compreensão do impacto da composição do ar e de sintomas em asmáticos. Agradecemos os 33 participantes que preencheram os questionários duas vezes por dia durante dois meses e, realizaram as provas de função respiratória como também a equipe do HU que montou a estação para determinação de poluentes.
Association between ionic composition of fine and coarse aerosol soluble fraction and peak expiratory flow of asthmatic patients in Sao Paulo city (Brazil) de Christine Bourotte, Ana-Paula Curi-Amarante, Maria-Cristina Forti, Luiz A. A. Pereira, Alfesio L. Braga, Paulo A. Lotufo publicado em Atmospheric Environment 41 (2007) 2036–2048. Trata-se da junção do projeto de pós-doutorado de Christine Bourotte e do doutorado de Ana Paula Curi (supervisionada e orientada, respectivamente por esse blogueiro) com financiamento da FAPESP (01/13945-6 e 02/04789-3). O estímulo à realização da pesquisa deve-se a Adolpho José Melfi e à Paulo Hilário Nascimento Saldiva.
Abstract
Air pollutants are associated with adverse respiratory effects mainly in susceptible groups. This study was designed to assess the impact of the ionic composition of particulate matter on asthmatic respiratory functions in Sao Paulo city. From May to July 2002, fine and coarse particulate matter fractions were collected and their respective chemical composition
with respect to major ions (Na+, Mg2+, K+, Ca2+, NH4 +, Cl_, NO3_ and SO4 2 _) were etermined in each aqueous-extract fraction. The results showed predominant concentrations of SO4 2 _ (48.4%), NO3_ (19.6%) and NH4 + (12.5%) in the fine fraction, whereas NO3_ (35.3%), SO4 2 _ (29.1%), Ca2+ (13.1%) and Cl_ (12.5%) were the predominant species in the coarse fraction. The association between the chemical components of both fractions and the daily peak expiratory flow (PEF) measurements (morning and evening) of the 33 asthmatic individuals were assessed through a linear mixed-effects model. The results showed a significant negative correlation (decrease of PEF) between morning PEF and coarse chloride (3-day moving average) and between evening PEF and coarse Na+ (3-day moving average), coarse Mg2+ (3-day moving average) and coarse NH4+ (2- and 3-day moving average). A significant negative correlation has also been observed between morning and evening PEF and Mg2+ in the fine fraction. These results suggest that some particle chemical constituents may increase the responsiveness of airways and that coarse particles that deposit in the upper airways may be more relevant for asthmatic response and irritation. However, the results do not prove a clear causal relationship.